31 de julho de 2010

Projeto de mulher

Lhe pega pela mão
e leva onde ele quer
Que graça tem então?
Assim não é ser mulher

Lhe pegam pela mão
E beijam nuca e pé
mas nunca o coração
É isso ser mulher?

Na vida de ilusão
de um mar que não dá pé
Lhe pegam pela mão,
você vai com a maré

Cumprindo protocolo
Que vida teatral!
Lhe dão carinho e colo
Mas tudo é maquinal

É tão sem emoção
Que chega a ser hilário
Lhe chamam de paixão,
Mas guardam num armário

Não tem opinião
nunca sabe o que quer
Só sabe dar a mão
E pensa que é mulher

Não sabe o que beber
nem sabe aonde ir
espera sempre ter
quem vá lhe conduzir

Você é deprimente
não acrescenta nada
Sequer parece gente
É uma boneca inflada

E você tanto cobra
E você tudo exige
Mas nada dá em troca
Não é feliz, só finge

Eu tenho muito dó
de alguém que vive assim
Pois vai ser sempre só
Ser só até o fim...

Eu tenho muita pena
De ver alguém assim
De alma tão pequena
e vida tão ruim...

30 de julho de 2010

Azul

O cheiro da noite me embriaga
Me dopa, me engole, me tapa...

Esse olho azul, azul, mas que olhar!
Que tanto olho e não me canso
Nunca canso de olhar

Esse sotaque arrastado
Esse seu jeito de dizer
Que tudo é tão inesperado
Me fazem entender
Que o tormento do passado
de tão vil e tão mesquinho
Não merecem atenção
Que essa gente interesseira
Nunca vai ter coração
Ah, não!

E nunca vai saber
O que é mergulhar
O que é ter você
Nesse azul do seu olhar...

21 de julho de 2010

O fim

Todo fim é um recomeço
E a vida traz sempre algum presente
Respiro fundo, eu me conheço
Sei o que me espera, olho pra frente
A dor será mero adereço,
Sei que mereço, sei que terei
um dia o sublime, o belo, o perfeito
O amor na medida, a paz no meu peito

Sei o que espero
Sei o que me reserva
Sei quem me rodeia
sem o que tenho de melhor
Sei o que posso oferecer,
Se tudo é tão maior
tão maior que ter você...

Você nada tem
Nada tem a oferecer
Nunca nada acrescentou
Sequer foi capaz
De me fazer sofrer...

Hoje recomeça
Hoje recomeçou
Minha vida, minhas alegrias
Tenho muito que viver
Tenho muito que sentir
Tenho tanto que conhecer
Nada pára por aqui...

Fórceps

A carne arde, mas rasgada
sangra e abre as portas da dor
Tenho ali extirpada
A última morada do amor

Qual um câncer de estúpido tumor
Arranco de mim o que sobrou de ti
Sinto a fibra se rasgar e o torpor
de toda uma vida sinto ao expelir
de mim o último resquício de amor

E o corpo se contorce em apelos
Enjôo e vomito enquanto escrevo
E os sonhos, já não ouso tê-los
Sequer a dormir hoje me atrevo

E as flores todas serão vertidas
de buquês em fúnebres corôas
Que comemorarão o fim da vida
e de todas aquelas coisas boas

E as falsas palavras todas
que despejou a tua boca
Hoje são pérolas tolas
Que hão de adornar coisa pouca

A ninguém mais comove teu vazio
Teu corpo já não esquenta emoção
Não vou te dar o prazer ardil
De me ver arder em contrição

Leva o que sobrou de mim,
meu último suspiro de paixão
Sê feliz, alguém sofre por aqui
Pode comemorar.
Alguém sofre, e é por ti.

A saudade

A saudade dói, e dói dia após dia
Eu lembro, ela dizia: "eu te amo, viu?"

Mas eu amava mais que amor era capaz,
e eu então sempre respondia:
Honey, eu te amo mais!

E eu falava porque eu bem sabia
Que tudo o que eu sentia
Era muito mais que mais

Ela dizia "eu te amo" tão à esmo
Que eu pensava sempre o mesmo
"Do que eu, ela não ama mais"

E hoje em dia estou perdido e sem caminho
Estou perdido e tão sozinho
Porque ela quis ter "paz".

Mas sem saber que a minha paz sempre foi ela
Ela verteu a vida bela
em tons de cinza e digo mais:

no mar do amor,
o meu barco naufragou
Meu coração se afogou,
desmoronou todo meu cais...

Depois que ela nunca mais telefonou
desmilingüiu o meu amor,
A minha vida andou prá trás

Ela se foi pois meu amor não lhe bastou
E eu tão doido de amor,
só sei dizer que dói demais...

18 de julho de 2010

Les yeux bleues

J'étais assis là
sur toute ma vie,
sur mes chagrins
et mon destin

Je ne pleurais pas
Mais je sentais
Je ne voulais que
rester là-bas

La poitrine
Sempre a chorar
Je ne voulais que rester lá-bas
sans me bouger
Je ne voulais que rester lá...

Ah!
Tu es venu
me demander
n'importe quoi
Nem sei por quê

J'ai vu tes yeux
A me fitar
Tes yeux sont bleues!
A me fitar

Et tu m'ai dit:
"non, ne pleure pas!"

Je t'ai dit alors
Sont des conneries
que quelqu'un m'a dit
elles me mettent comme ça,
Fazem chorar

Je suis comme ça
elles font comme ça
des conneries,
c'est n'importe quoi!!
elles font comme ça
Et ça fait mal...

Mais alors, quoi!?
O que vou fazer?
Si j'ai bien tes yeux
à me regarder

Tes yeux sont bleues
O que vou fazer?
Vou t'embrasser

Te trazer pra cá
Tes yeux sont bleues
Esse é o meu lugar...

Quero esquecer le temps
Où j'etais lá-bas
E todas as dores
N'importe quoi!

Tes yeux sont bleues
Vem mais pra cá...
Je ne sais plus
Ce que je ferais...

Je l'aime toujours
Et ça fait mal
Mais j'ai des yeux
Pour me caresser
J'ai tes yeux
Et ils sont bleues...

16 de julho de 2010

Adeus

Quem pede a deus
não quer saber
Só diz adeus
quem quer partir

Eu lhe vi dizer adeus
sem nem me olhar
pedi a deus p'ra me salvar
p'ra me salvar do pesadelo
que é não mais tê-lo ao lado meu

Mas o que foi?
que aconteceu?
Você se foi
Enquanto eu...

não me contive
e implorei por um perdão
que nunca tive,
E todo o pranto foi em vão

Cadê meu chão?
Como é cruel!

Por que então?
Como é cruel!

Cadê meu chão?
Cadê me céu?

11 de maio de 2010

A Sala de Café

Não há receita,
não existe método.
Não há fórmula,
não existe teoria

Que explique o desejo
A vontade de ser o outro
De engolir a si mesmo
De se fundir
De compactar os corpos
E morder, abraçar e sufocar,
e ver o mundo passar pela janela

Ninguém explica. O instinto selvagem,
a vontade piegas de passar a eternidade junto
Juntos...

Eu tinha um refúgio.
Um cantinho só meu,
pra onde eu corria...
A fim de me entorpecer de cafeína,
de fingir que me importava!

Mas, sobretudo, a fim de ver você.
Veja a vida como é,
De repente eu me lembro
Da sala de café...

Nunca vou esquecer
Da sala de café,
Onde cismava de m'esconder
Quando já perdia a fé,
Quando a vida me doía,
Quando a sombra do dia-a-dia
Teimava em entorpecer
Os sentidos, o meu peito
Eu me lembro que sem jeito
Eu descia pro café.

E lá eu lhe encontrava,
O sorriso disfarçava
os passos ébrios de desejo,
de paixão...

Que vontade que eu tinha,
que desejo insandecido
de fazer você ser minha,
de cantar no seu ouvido

Mas só tinha a cafeína
me fazendo companhia,
Você era a heroína
Que eu então jamais teria

Eu me dopava de café
Veja a vida como é!
E lhe olhava, bem nos olhos
Eu sonhava com nós dois
Encarnava, descartava o depois

Eu me lembro dos seus olhos...

E até hoje, no escuro da noite, quando lhe beijo docemente,
eu sinto a vida como ela é
e me lembro... Da sala de café...
Eu me lembro
Da sala de café...

19 de abril de 2010

Sem céu

Não há palavras
Dias, meses, anos
O tempo passa
Caprichosamente
Zombeteiro,
Trigueiro

O tempo passa e zomba de mim
E zomba desses sonhos todos que cismo de sonhar,
Que insisto em querer viver
Como se não fosse acordar
Ensopado e sozinho
Perdido num escuro qualquer,
Sem mão nem abrigo
Sem noção do perigo

Eu vejo meu coração na berlinda
No centro do mundo e das atenções
sendo chacota, virando piada
E tudo o que eu sinto
Simplesmente não vale nada

Não sou perfeito, nem ousaria sê-lo
Mas, sinceramente...
Ser uma fagulha num mundo de gelo
É algo que dói

Tormento, angústia, sofreguidão.
Eu tento entregar meu coração
Mas ai, o que dizer?
Se de repente, perdi você
Cadê a mão? Cadê as juras?
Só há solidão
E ruas escuras...

31 de março de 2010

Vida...

A vida prega peças
E as prega sempre sem piedade
Quando nos aproximamos do sublime
E achamos que conhecemos a perfeição,
Surgem os entretantos, aparecem os senões

E a felicidade se esquiva,
puxa o corpo, joga finta, dribla

Porque a perfeição não é perfeita, então?
Por que diabos sempre existe o tal senão?

16 de março de 2010

Destino

Torpe, estúpido destino
que insiste em versos esconder
E camuflar de poesia
A dor mais crua e dura
De um quotidiano imerso
Na mais amarga agonia

E a cada ato insano ou jura
Só faz sangrar, virar em verso
Em aflição verter o dia,
em contrição, a poesia

E se pudesse, então diria
Do meu destino aqui disperso
Que não suporto a hipocrisia
De uma vida ao reverso

Que sonho com o raiar do dia
Que tenho o peito submerso
Que submissa tenho a alma
E que meu corpo é tão perverso

Que meu amor não tem remédio
Que a aflição também acalma
Que adoeço desse tédio
E o destino, bate palma...

2 de março de 2010

Conflitos

E quando se sente
O peito rachado
A alma dormente
O sonho de lado
Que se há de fazer?

Quando se quer
Mas nunca se sabe
Quando se esconde
Da própria vontade
O que se há de fazer?

Quando o mundo
parece pequeno
E o próprio desejo
Encarna o desdenho
Que eu hei de fazer?

Quando se quer amar,
Mas o destino aparta
Quando só há penar
E quando a dor é farta
Que se há de querer?

Quando tudo que espero
É um grão de iniciativa
E só ganho protocolo
Sempre a mesma assertiva
Que me resta fazer?

Quando tudo não cabe,
quando nada mais serve
Quando a dor é suave
Mas a alma é o que ferve
Que se há de dizer?

21 de fevereiro de 2010

O céu

O céu é doce
Tem candura no olhar
Tem a pele, a voz, os olhos
Que me fazem implorar
Por um tempo que não lembro
Jeito triste de amar

Gamar
no mar
Dela
faz de mim
ser assim
tão só
dela...

1 de fevereiro de 2010

Tempos idos

Tudo o que eu sei
Falar da ausência
dizer da distância
é que eu
eu tinha medo!
Enquanto ela...
Tinha o grilhão

Mas não me importava, não!
Eu sempre fingi bem
Era forte assim, por fora
Mas por dentro, eu remoia:
"eu juro, a qualquer hora,
Eu juro, qualquer dia
Qualquer dia eu estouro, viu?
Vil amor
Viu, amor?"

A gente ia longe
A gente se escondia
E no final do dia,
Antes de viver a noite
Era cada um por si,
Meu amor virava açoite...

Cada um no seu canto
Pensando no outro
A sonhar carnaval
Mas vivendo sempre
o mais casto dia-a-dia
Agonia!

Eu afogava a agonia
Em cachaça e sol ardente
A sonhar que um dia a gente
Ia ser tudo que quer, mas
sem ter idéia do que é...
Sem nem saber por que se quer...
Do que é...

"Ma jolie!
Estou aqui.
Onde estás?
Por aí!
Onde foi,
ma jolie??
Já se foi
Por aí
Já se foi
Ser feliz
Quanto a mim..."

Eu ficava lá
Eu sonhava aqui
A esperar
E por umt triz...
Ai, como eu queria!
Ai, como eu quis!

Mas aí, o tempo conspirou
dessa vez ao meu favor
Soprou o vento das entranhas
Fez verter o pó e a angústia
Nesse novo lindo amor...